DAS TRAGÉDIAS VEM A SABEDORIA

DAS TRAGÉDIAS VEM A SABEDORIA

Sempre digo a todos que preciso de um insight para começar a escrever. Dessa vez veio de um grande e sábio amigo, Wagner de Melo, que é militar da Aeronáutica e trabalha em nosso tráfego aéreo. Ele me contou que alguns mísseis “ar/ar”, ou seja, aquele que sai de aeronave para aeronave, são programados para explodirem na parte média da aeronave, pois o objetivo do míssil não é apenas abater a aeronave, mas também aumentar as chances de eliminar o piloto. Vejam só, apesar de todas as tecnologias e armamentos sofisticados, o homem se sobrepõem à máquina em importância nas táticas de guerra.

Achei essa informação muito interessante, fazendo-me mais claro, o que quero destacar é que a eliminação de homens treinados com elevada experiência é muito mais importante para se ganhar a guerra do que destruir equipamentos e máquinas, que são facilmente ou em menor tempo adquiridos. Além disso, temos também o impacto negativo que a perda de um companheiro traz para o moral da tropa.

Isso tudo é para fazer uma analogia com a tragédia que houve semanas atrás no centro do Rio de Janeiro, calamidade essa que foi fruto de um “jeitinho brasileiro” de resolver o que não deveria nem ter começado. Quantos de nós nesse momento (pelo menos os que têm mais consciência), não estão pensando, será que a minha operação é segura? Sabemos nós que para abrir um negócio de alimentação o corpo de bombeiro passa somente uma vez para fiscalizar e depois passam décadas e nada. Deveríamos ter leis mais severas, no que diz respeito a respeitar e poupar vidas.

De modo semelhante às forças armadas em todo mundo, levamos anos e anos para treinar um profissional para ser um bom chefe de cozinha, cozinheiro, maitre, etc. Quando houve a explosão do botijão de gás, além de perdemos bons profissionais, foram-se pais, mães, filhos, namorados. Perdas irreparáveis! Os cargos serão reocupados, mas nas vidas dos familiares e entes queridos haverá sempre um vazio. O ser humano deve se sobrepor à máquina, pensar em segurança claro que é eliminar prejuízos futuros, agir corretamente, mas sobretudo ter uma atitude social e valorizar a vida como bem maior. Esse texto parece ser um pouco fatalista e mórbido, mas podem acreditar que para aqueles que perderam seus familiares esse texto apenas traduz os sentimentos mais profundos e tristes.

Quando foi que fizemos uma verdadeira manutenção da nossa operação? Quando é que iremos parar com a maldita, como dizem, “gambiarra”? Economizamos tostões de réis todos os anos para colocar em risco o que construímos em anos e anos. Será que aprendemos mais com a dor do que com o amor?! Se sim, parabéns a todos e vamos esperar pelo pior e seja o que Deus quiser.

Sentado com o Presidente do SindiRefeições o Sr. João Ricardo aqui no Rio de Janeiro, começamos a discutir e pensar nesse assunto e como a capacitação é uma palavra das mais comentadas nesse começo de século, resolvemos capacitar também os dirigentes das empresas. Contatamos um outro grande amigo meu, o Capitão Bruno Agnes, para criamos juntos um curso a fim de tentarmos minimizar, ou melhor, sensibilizar os dirigentes e empresários do setor a olhar um pouco mais para dentro da sua operação e realmente acabar com qualquer possibilidade de um novo desastre. Vamos ser bem sucedidos nessa empreitada? Espero que sim, pois cada dirigente que voltar para a sua unidade com um olhar mais apurado é uma unidade ou várias que correram menos riscos.

Estamos numa época de alegrias, o Brasil foi escolhido para os maiores e mais importante eventos da nossa época, vamos celebrar a vida e não a tragédia. Vamos correr contra o tempo e fazer um verdadeiro “check up” dentro do nosso negócio. Lembrando que não é somente com explosões de grandes proporções que devemos nos preocupar, mas também com cada profissional/ser humano que pode vir a sofrer um pequeno acidente e assim diminuir a nossa “tropa”, pois cozinhas e salões vivem em eterno estado de guerra, mas nossa guerra não é contra alguém, mas sim a luta pela qualidade, pelo bom resultado e pelo sucesso. Cada dia temos que vencer a batalha do bem alimentar e bem servir.

Amigos, sei que esse texto não é dos mais agradáveis, como eu sempre falo, consultores são como pais e puxar uma orelha ou dar conselhos fazem parte do nosso dia a dia. É melhor ficar bravo hoje do que desesperado amanhã. Lá na minha terra natal, Tatuí, diz-se muito: “Porta arrombada cadeado de ferro”, não vamos deixar que isso aconteça com a gente.

Uma ótima semana.

 

David Eleutério
Chef Professor David Eleuterio tem mais de 24 anos de experiência no ramo da alimentação fora do lar. Formado pelo Senac de Aguas de São Pedro em 1988, com licenciatura plena em Pedagogia e MBA em Gerenciamento de Projetos PMI.
Com passagem em redes de Hotéis, Restaurantes e Empresa de serviço de bordo. Especialista na área de criação, foi professor na área de gastronomia em diversas matérias nas Instituições FMU, Estacio de Sá e Senac.
Consultor Senior na divisão FoodServices na empresa Nestlé do Brasil.
Tem na sua carteira de clientes, grupos como Porcão, Viena, Gula Gula entre outros. Trabalhou junto ao Consorcio do Jogos Mundiais Militares, desenvolvendo a conceituação dos serviços de alimentos dentro das vilas militares.

Gastronomix - Inovação e Resultado em Consultoria Gastronômica.
Tel.: (21) 8895-6155 / (11) 9 5363-1457
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