Escala 6×1 e os impactos econômicos para turismo, hotelaria e comércio

Por: Sr Orlando de Souza – Presidente Executivo do FOHB

O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro da agenda pública com propostas legislativas que preveem o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal para 36 horas. A discussão é legítima e envolve um objetivo social relevante: melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, mudanças estruturais dessa magnitude exigem uma avaliação cuidadosa de seus impactos econômicos — especialmente em setores cuja operação depende de funcionamento contínuo, como comércio, turismo, hotelaria e alimentação.

Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) indicam que o Brasil possui atualmente cerca de 57,8 milhões de empregos formais, sendo que aproximadamente 31,5 milhões de trabalhadores estão em jornadas que seriam diretamente afetadas por mudanças no modelo atual.

Entre os setores mais sensíveis à discussão está justamente o universo de serviços ligados ao turismo. Estudos recentes mostram que os serviços de alojamento apresentam uma das maiores dependências da escala 6×1 no país, com cerca de 52% dos trabalhadores nesse regime, enquanto os serviços de alimentação chegam a 47,1%. Esses números refletem a própria natureza dessas atividades, que precisam operar diariamente para atender hóspedes, turistas e consumidores, inclusive em finais de semana e feriados.

 

 

No comércio, setor diretamente conectado à dinâmica do turismo, a dependência de jornadas superiores a 40 horas semanais também é significativa. Dados da RAIS mostram que 93% dos contratos no comércio varejista e 92% no atacadista estão concentrados acima desse patamar, evidenciando que uma mudança abrupta no regime de jornada teria efeitos diretos sobre a estrutura operacional dessas atividades.O impacto econômico dessa alteração pode ser expressivo.

Simulações conduzidas pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indicam que a adaptação a um teto de jornada inferior a 40 horas poderia gerar um custo anual de aproximadamente R$ 122,4 bilhões apenas para o setor de comércio, representando um aumento de cerca de 21% na folha salarial do segmento. No setor de serviços, onde se inserem atividades como hotelaria, turismo e alimentação, o impacto estimado é ainda maior. Com base em dados da RAIS/IBGE, estudos da CNC apontam um custo potencial de aproximadamente R$ 235,7 bilhões anuais, o que reforça o grau de sensibilidade dessas atividades a mudanças abruptas na jornada de trabalho.

Esse aumento de custos tende a se refletir em toda a cadeia econômica. Modelagens econométricas indicam que ele poderia gerar pressões inflacionárias relevantes no longo prazo, ao mesmo tempo em que reduziria a rentabilidade das empresas. As estimativas apontam para uma redução de cerca de 5,7% no excedente operacional bruto do comércio, equivalente a aproximadamente R$ 73 bilhões em valor presente.

Além dos efeitos diretos sobre os custos das empresas, estudos econômicos apontam que mudanças abruptas na jornada de trabalho podem gerar impactos em diferentes dimensões da economia e do mercado de trabalho, conforme sintetizado a seguir.

Prováveis impactos econômicos da redução abrupta da jornada de trabalho:

 

 

 

Na prática, os impactos podem ir além da estrutura de custos das empresas. Estudos indicam que mudanças abruptas na jornada podem gerar aumento do preço de bens e serviços, pressões inflacionárias e elevação do custo unitário por trabalhador. Também há projeções de impacto negativo sobre o Produto Interno Bruto, estimado em cerca de R$ 88 bilhões, além de possíveis efeitos sobre a competitividade internacional da economia brasileira e sobre os custos do próprio serviço público.

A estrutura econômica do setor ajuda a compreender essa sensibilidade. Dados da Pesquisa Anual de Comércio do IBGE mostram que o setor comercial brasileiro gera um valor adicionado significativo à economia. Em 2010, por exemplo, o comércio apresentou R$ 316 bilhões em valor adicionado bruto, com gastos com pessoal superiores a R$ 152 bilhões e mais de 9,3 milhões de trabalhadores ocupados. Esses números ilustram o peso da mão de obra na composição de custos do setor — fator que torna qualquer alteração abrupta na jornada de trabalho especialmente relevante para sua sustentabilidade econômica.

Outro aspecto importante no debate é a comparação internacional. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que a redução das horas trabalhadas nas economias desenvolvidas ocorreu de forma gradual ao longo de décadas, acompanhando transformações na produtividade, na estrutura econômica e nas relações de trabalho.

Países como Áustria, Alemanha, Japão e Coreia do Sul registraram uma queda consistente nas horas trabalhadas por ano entre 2010 e 2023, resultado de ajustes progressivos ao longo do tempo — e não de mudanças abruptas em um único momento legislativo.

 

 

 

A tendência observada na OCDE revela que a redução da jornada costuma ocorrer de forma progressiva e associada a ganhos de produtividade, permitindo que empresas e trabalhadores se adaptem gradualmente às novas condições do mercado de trabalho.

Além dos impactos macroeconômicos, especialistas também apontam possíveis efeitos no próprio mercado de trabalho. Entre eles estão o risco de aumento da informalidade, maior rotatividade de trabalhadores e eventual substituição de postos formais por mão de obra de menor custo ou por formas alternativas de contratação. Em cenários de forte pressão sobre os custos, empresas também podem acelerar processos de automação e adoção de tecnologias para substituir atividades intensivas em trabalho.

Outro ponto relevante no debate é a relação entre jornada de trabalho e produtividade. Experiências internacionais mostram que reduções de jornada bem-sucedidas costumam ocorrer quando acompanhadas por ganhos consistentes de produtividade. Em outras palavras, é a produtividade que sustenta a redução da jornada — e não apenas mudanças legais. Quando esse equilíbrio não ocorre, trabalhadores podem acabar buscando complementação de renda por meio de múltiplos empregos, o que pode gerar aumento da sobrecarga e impactos indiretos sobre a saúde e o bem-estar.

Diante desse cenário, o desafio não está em negar o debate sobre a modernização das relações de trabalho, mas em construir um caminho de transição que preserve empregos, competitividade e a capacidade de investimento das empresas.

Nesse sentido, uma das alternativas defendidas por entidades empresariais é a adoção de modelos de transição gradual, baseados na negociação coletiva entre sindicatos patronais e laborais. Esse mecanismo permitiria que cada setor ajustasse suas escalas de forma progressiva, respeitando as especificidades operacionais de cada atividade.

Para segmentos como hotelaria, turismo e alimentação — que dependem diretamente de funcionamento contínuo e de forte intensidade de mão de obra — esse tipo de abordagem é particularmente importante. Uma transição planejada pode permitir avanços nas condições de trabalho sem comprometer a sustentabilidade econômica das empresas nem a geração de empregos.

O debate sobre a jornada de trabalho é necessário. Mas para que produza resultados positivos para trabalhadores e empresas, ele precisa considerar com profundidade os impactos econômicos e a diversidade da estrutura produtiva brasileira.

O desafio, portanto, não está apenas em discutir a redução da jornada, mas em encontrar um modelo que equilibre bem-estar dos trabalhadores, sustentabilidade das empresas e competitividade da economia brasileira — especialmente em setores estratégicos e intensivos em mão de obra, como hotelaria, turismo e alimentação.