Nova geração de vendedores ambulantes muda a cara da comida de praia do Rio

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Suco detox, sanduíche italiano e picolé de sorvete entram para o cardápio de comes e bebes oferecido nas areias da orla


Por Joana Dale



Ana Luisa Arruda vende sucos detox na Praia de Ipanema – Ana Branco / Agência O Globo


RIO — Biscoito doce ou salgado? Mate com ou sem limão? Esfirra de carne ou de queijo? O tradicional cardápio de comes e bebes da praia ganhou opções com doses extras de requinte. O verão que chega ao fim na próxima sexta-feira, dia 20, viu nascer nas areias uma nova geração de vendedores. Numa volta pela orla carioca, encontra-se gente oferecendo picolé de cerveja premium (de damasco com pilsen ou de gianduia com bock?), sanduíche italiano (na focaccia ou na ciabatta?) e suco detox (com ou sem adição de água de coco?), entre outras mercadorias “gourmetizadas” — para aproveitar o neologismo da temporada.


— O maior lazer do carioca é a praia. Nada mais justo que ter ofertas diversificadas, que permitam às pessoas se alimentarem bem e ficarem felizes — avalia o chefão Claude Troisgros.


INFOGRÁFICO: A evolução da comida de praia no Rio


A faixa de areia entre as ruas Garcia D’Ávila e Maria Quitéria, em Ipanema, virou o endereço de um informal polo gastronômico. É nesse trecho, que tem o Caesar Park como ponto de referência, que Ana Luisa Arruda, do Suco Que Beleza, e Luca Garofalo, do Pazzo Delizias Italianas, circulam desde o fim do ano passado. Inicialmente chegou ela, que resolveu engarrafar o suco verde caseiro para se lançar como ambulante. No primeiro sábado de sol que pisou na areia com um cooler a tiracolo, a mistura de couve, laranja, maçã e gengibre saiu que nem água.


— De um modo geral, as opções de bebidas vendidas na praia são zero saúde e, a partir de uma demanda pessoal, percebi que tinha espaço para o suco verde — conta Ana Luisa, de 28 anos, formada em Relações Públicas. — Já trabalhei em multinacional, mas é na praia que pratico o que aprendi na faculdade.


Diante do sucesso entre o público gringo e carioca, ela desenvolveu novos sabores. Atualmente, o menu tem 14 opções, como fruta-do-conde com maracujá e cranberry com laranja e maçã. Cada garrafinha, de 500ml, custa R$ 6.



Luca Garofalo faz sanduíches italianos – Ana Branco / Agência O Globo


Filho de pai italiano e mãe brasileira, Luca chegou à praia um mês depois, com os seus óculos Ray-Ban e chapéu de couro. O simpático rapaz de 25 anos logo fez fama com os três sabores de sanduíche à moda italiana: peito de peru, salame e vegetariano, a R$ 10, cada:


— É possível ter uma experiência gastronômica na praia sem pagar uma fortuna.


Lendário ambulante dos arredores do Caesar Park, Luis Claudio Barros, criador do Sucolé do Claudinho, recebeu os novatos Ana Luisa e Luca de braços abertos em sua área.


— A loura do suco e o italiano do sanduíche têm presença, educação e oferecem produtos de qualidade. Eles já cativaram o público local. São os novos Joel do Abacaxi e Nogueira Sucos — compara Claudinho.


A sofisticação do cardápio da areia é uma tendência irreversível. E tende a se desenvolver ainda mais, aposta Francine Xavier, gerente de produtos de gastronomia do Senac RJ.


— A boa comida deixou de ser reservada a poucos, está cada vez mais popular. A praia é a conquista de mais um território — afirma Francine. — É um movimento cultural, que acompanha a febre do detox e o boom das cervejas.



Felipe Pinho vende picolés de cerveja – Ana Branco / Agência O Globo


De olho nos cervejeiros de plantão, mês passado, ambulantes de primeira viagem começaram a circular pelas praias de Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra vendendo picolé de cerveja com teor alcoólico de 3,5%. Ou seja, se tomar sorvete, não dirija. Esta é uma das dicas do vendedor Felipe Pinho, 22 anos, estudante de Economia na UFF e, nos fins de semana, integrante do time de ambulantes da marca Craft Beer Ice Cream.


— As pessoas ficam curiosas quando conto que estou vendendo picolé de cerveja. Demoro seis minutos conversando com cada cliente que abordo. Foco em grupos que estão bebendo cerveja. Os coroas são os que mais compram — conta Felipe.


São cinco criações harmonizadas pelo sommelier de cerveja Túlio Rodrigues: damasco com pilsen, doce de leite com IPA (India Pale Ale), laranja com weissbier, chocolate belga com dunkel e gianduia com bock.


— Recomendo o belga com dunkel para as mulheres — completa Felipe, informando que cada um custa R$ 8.


É o mesmo preço do copo de 400ml da cerveja artesanal Irada, fruto da parceria entre o empresário Felipe Nogueira e o ator Malvino Salvador. Desde dezembro, escuta-se pelas areias do Leblon o grito “Olha o malteee!”. Nos fins de semana, podem ser de três a cinco vendedores (morenos e altos), de acordo com a previsão do tempo.



Afonso Gomes e a mochila-barril da Irada, na Praia do Leblon – Ana Branco / Agência O Globo


— Não tem milho, nem trigo, nem arroz. É puro malte — detalha o português Afonso Gomes, de 27 anos, com uma mochila-barril de 12,5 litros nas costas.


Num bom sábado, são vendidos até 200 litros, ou um copo por minuto.


Antes de pisar na areia, os ambulantes precisam de autorização da prefeitura (atualmente são 1.255 cadastrados) e seguir um manual de conduta. Não vale manipular alimentos na areia, como queijo coalho. Salgados e sanduíches devem estar devidamente embalados. Bebidas, só em lata ou recipientes de plástico.


Já para ser um barraqueiro são outros quinhentos. Os 1.145 cadastrados têm concessão praticamente vitalícia. No momento, existem vagas disponíveis para barraqueiros só na Praia da Reserva, informa a Secretaria de Ordem Pública.


Depois de cinco anos correndo atrás de uma barraca para chamar de sua, Marcelo Nuno, de 38 anos, largou o mercado financeiro para virar auxiliar de um barraqueiro no Leblon, onde mora. Em 2014, ele começou a investir no atendimento e deu uma repaginada no cardápio. Para beber, vinho em lata italiano Ciao (branco, rosé ou moscatel, por R$ 15, cada) e cerveja alemã Erdinger (latão, também a R$ 15). Para comer, iguarias argentinas do Las Empanadas, sediado na Dias Ferreira.



Marcelo Nuno comanda a barraca Le Blond – Ana Branco / Agência O Globo


— A praia é um bom negócio. Mesmo em dias menos movimentados, a barraca se paga — diz Marcelo, que monta a Le Blond todos os dias de sol.


Por sua vez, os novos sócios da Restinga, inaugurada há um mês no Posto 10, em Ipanema, ainda estão avaliando em que dias vale a pena montar a barraca.


— Estamos testando as segundas, dia de folga de quem trabalha no fim de semana — explica o DJ Zeh Pretim, sócio de Ricardo Bräutigam, Thiago Pires e Pedro Henrique Brito (o último herdou a concessão para administrar o espaço do antigo barraqueiro).


O serviço VIP das praias de Ibiza, na Espanha, é a inspiração do quarteto para transformar a Restinga num point “diferenciado”. A diferença começa pelo staff, que, além de funcionários que levam coco para os clientes nas espreguiçadeiras (sim, há espreguiçadeiras), conta com uma hostess. O nome dela é Marina Pumar, de 19 anos, que trabalha na barraca de sexta a domingo.



Marina Pumar é ‘hostess’ da barraca Restinga, no Posto 10 – Ana Branco / Agência O Globo


— A bebida mais pedida é o clericot (drinque à base de vinho branco, soda e frutas, a R$ 10). As meninas não querem beber cerveja na praia por causa da barriga — conta Marina, entre um gole e outro.


A partir de amanhã, quando estreia “Babilônia”, novela das 21h da TV Globo, a atividade promete ganhar doses extras de glamour: Regina (Camila Pitanga), a mocinha, trabalha numa barraca na Praia do Leme. Em “Vale tudo”, o autor Gilberto Braga já tinha ajudado a popularizar a venda de sanduíche natural na areia com a trama de Raquel (Regina Duarte).


— Vendedores ambulantes e barraqueiros me encantam por serem personagens bem cariocas — diz Gilberto.


Para o professor André Vidal Perez, especialista em empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas, o movimento de jovens com nível superior em direção ao mar é natural.


— Os jovens prezam a qualidade de vida, e muitos estão fugindo de trabalhos formais, do trânsito etc. — observa André. — A questão é que, em pouco tempo, essa nova geração terá suas ideias copiadas.


Ou seja, já está na hora dessa turma começar a pensar em novidades para o próximo verão.




Fonte:  O Globo