Para os clássicos o tempo não passa
Por Marcelo Copello
O que O Pasquim tem a ver com o La Romanée-Conti? Nada mais dissonante do que unir o hebdomadário político-humorístico dos anos 70 à nobreza do grande Borgonha, mas eu explico. Recentemente resolvi colocar em dia a leitura e comecei pela antologia de O Pasquim, em dois volumes, com mais de 700 páginas (Ed. Desiderata, 2006).
A nostalgia desta época que eu não vivi me levou à leitura da obra prima de um dos colaboradores do tablóide, “A mão esquerda” de Fausto Wolff (Ed. Leitura, 4ª edição, 2007). Sobre o gigante de Santo Ângelo tenho uma história pessoal. Conheci-o em um aeroporto em 2004, conversamos antes do embarque no mesmo vôo. Enquanto ele se servia direto do gargalo de uma garrafa de whisky que trazia no bornal, me convidava para fazer uma coluna de vinho no recém relançado O Pasquim. Durante o vôo ele se levantou e anunciou para todos que iria cantar e assim o fez por longo tempo…
De Wolff emendei em uma recém lançada biografia de um colega seu, “Paulo Francis – Polemista Profissional”, de Paulo Eduardo Nogueira (Ed. Imprensa Oficial, 2010). Logo nas primeiras páginas li que Francis em sua última noite assistiu ao clássico de Alfred Hitchcock, Notoriuous (de 1946), e se deliciou com imagens do Rio antigo. Larguei o (fraco) livro na hora e fui direto ao filme. Ah, que saudade do Rio dos anos 1940! Em tese eu já existia (de forma desconstruída), pois meus pais nasceram em 1939.
O filme nos mostra uma vista aérea do Rio, com o corcovado e o redentor em destaque. Ao longo da película podemos ver o outeiro da Glória ao fundo, a praia do Flamengo antes do aterro, o Theatro Municipal, a Avenida Atlântica com poucos e baixos prédios, o hipódromo da Gávea e a Cinelândia (onde o par romântico que protagoniza este suspense, Cary Grant e Ingrid Bergman, se encontravam secretamente).
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O maior astro do filme, contudo, foi para mim uma garrafa de um bom Borgonha. O Pommard 1934, de François Penot, aparece em destaque uma das cenas de maior tensão do enredo. Grant infiltra-se na recheada e trancada adega do vilão nazista durante uma festa para tentar descobrir o que os bandidos ocultam ali. Ao esbarrar na tal garrafa ela se quebra. Para surpresa geral o que se esparrama no chão não é vinho e sim o que depois descobrem ser minério de Urânio.
O herói repõe o lugar vago na estante com uma outra garrafa do mesmo vinho, mas se esquece de verificar a safra. No lugar do bom ano de 1934 fica um inferior 1940, o que vem a ser descoberto e quase custa a vida da heroína. A safra de 1934 é considerada de qualidade muito boa, embora não excepcional. Alguns raros exemplares ainda vivem com saúde aos 77 anos de idade.
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Quem estiver interessado em conferir, a casa de leilões Christie´s de Nova York está anunciando 6 garrafas de La Romanée-Conti 1934 por 56,4 mil dólares. Este lote faz parte de uma coleção particular nos EUA. Vale a pena uma olhada no site (www.christies.com) e na coleção, que começa na lua com alguns lotes de Dom Pérignon 1921 e sobe para outras galáxias.
Lembro que até 1945 o vinhedo La Romanée-Conti era em “pé franco” (sem enxertia contra a praga phylloxera), o que valoriza ainda esta safra histórica. Segundo o site o vinho foi testado e está perfeito: “de cor âmbar, como um porto Tawny, nariz fragrante, fresco e com especiarias, corpo suculento, sedoso, doce, com toques de caramelo, final seco, cativante”.
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Convenhamos que é uma pechincha! Cerca de R$ 15 mil por garrafa é menos do que se paga no Brasil por uma garrafa do mesmo vinho, de safra recente. Vamos fazer uma vaquinha?
Marcelo Copello (mcopello@bacomultimidia.com.br)