
Fragolatte – Apperol, Vermute Bianco, Morango, Pimenta Jamaixa, Puxuri, Leite. Munir Bucair Filho
Técnicas como clarificação, emulsão e controle ácido deixam de ser bastidores e passam a moldar sabor, textura e experiência nos bares contemporâneos
Por trás de coquetéis cada vez mais equilibrados e precisos, há um movimento silencioso que vem ganhando força na coquetelaria contemporânea: a incorporação de princípios da química dos alimentos como ferramenta central de criação. Técnicas como clarificação, emulsão, extração e controle ácido deixam de ser recursos pontuais e passam a estruturar a forma como bares autorais desenvolvem seus cardápios.
Mais do que uma busca por inovação estética, o objetivo é técnico: organizar sabores, controlar textura e garantir consistência. No Testarossa, em Curitiba, o bartender Ariel Todeschini, até então consagrado o melhor do Brasil pelo WorldClass, aplica esses princípios no desenvolvimento de sua coquetelaria. “O objetivo final é impressionar pelo resultado no copo. A prioridade é o que se bebe, o que se experiencia. Não estamos falando de fogo, fumaça ou enfeites mirabolantes”, diz.
A clarificação é uma das técnicas mais versáteis. No Fragolatte, o uso do leite promove a coagulação das proteínas, que capturam partículas sólidas, taninos e excessos aromáticos. “Esse processo não apenas deixa o coquetel translúcido, como também suaviza amargores do Aperol, integra especiarias como a pimenta-da-jamaica e cria uma textura mais sedosa”, explica. Já no Tiramisu Fizz, a clarificação permite trabalhar ingredientes naturalmente densos como café, mel e cumaru de uma forma leve, abrindo espaço para a carbonatação sem perder profundidade de sabor.

Parmigiano Souer. Munir Bucair Filho
A química também é determinante na construção de textura. No Pesto Gimlet, o azeite de oliva, que naturalmente se separaria do líquido, é estabilizado por meio de emulsificação com um blend de gomas. Esses agentes permitem que o sabor do azeite se integre ao coquetel sem pesar ou separar no copo. Além disso, o uso de manjericão fresco preserva compostos aromáticos voláteis e garante frescor vegetal ao coquetel.
No Parmigiano Sour, a técnica atua diretamente na percepção sensorial. A aquafaba substitui a clara de ovo como agente emulsificante, criando uma espuma estável, enquanto o Parmigiano Reggiano ralado adiciona glutamato natural, responsável pela sensação de umami. “Esse diálogo entre acidez, doçura, salinidade e gordura faz com que o coquetel evolua na boca, lembrando mais um prato do que um coquetel tradicional”, conta o bartender.
Já o Caprese Martini explora a extração de sabor com controle preciso de textura. A partir de águas aromáticas de tomate, burrata e azeitona, o bar consegue manter intensidade de sabor com controle absoluto de gordura, salinidade e transparência. O jerez fino entra como elemento de conexão, trazendo mineralidade e transformando o clássico vodka martini em uma releitura líquida da salada caprese.
Apesar do embasamento técnico, nada disso é apresentado de forma complexa ao cliente. No Testarossa, a lógica é inversa: quanto maior o rigor no processo, mais simples deve ser a experiência final. “A gente parte de sabores que as pessoas já conhecem, como pesto, tiramissu e caprese, e traduz isso em coquetéis. A técnica está ali para garantir precisão, mas a leitura precisa ser imediata”, complementa Ariel Todeschini.