
Nos últimos 25 anos, mais de 40 endereços de hotel da capital gaúcha fecharam, trocaram de nome ou de dono, por causas diversas e por alguns acidentes de percurso, dos quais anotamos 3:
– Bug do milênio da hotelaria
– Copa do mundo FIFA
– Pandemia da Coronavac
O bug do Milênio
O termo cunhado por alguns inimigos de Bill Gates, para avisar de um perigo inexistente de que os computadores não funcionariam corretamente por causa da mudança do milênio, serviria para definir todos os efeitos maléficos advindos de problemas inexistentes por causas irreais sem base na ciência e sim, na maledicência.
Na virada do 2o para o 3o milênio, ocorreu uma revolução na vida dos hotéis em termos de modelagem de negócio: deixaram de ser propriedade de construtores, agricultores ou comerciantes e tornaram-se ativos de geração de renda, convertidos em certificados de renda variável, como se fossem uma ação, calçada em propriedade imobiliária, na qual o valor tenha saído do patrimônio, passando para a capacidade de produzir dinheiro através da venda de “momentos de sono, silêncio e descanso”, como era definida a hotelaria na antiga China de 12 milênios no passado. “Quadrilhas” e “Piratas” eram termos recorrentes da hotelaria do triunvirato da era pré-industrial, para definir os novos players que construíam, vendiam e operavam hotéis integrados ao conceito de cidade viva, na contra-mão dos bunkers de antigamente, onde hotel estava mais para “fortaleza inexpugnável” que para “ponto comercial”. Foi o caos.
O Circo da Copa
Hospitais e hotéis colocaram mais camas e cadeiras que assentos nos estádios nas cidades por onde passou o circo da FIFA. Inter e Grémio – na única cidade brazuca com dois estádios padrão FIFA – diminuíram os tamanhos do Beira-Rio e da Arena para a copa, em compensação, a rede hospitalar mais que dobrou de capacidade – como se a copa do mundo de futebol fosse trazer alguma doença – e os novos hotéis pintaram o mapa da cidade como nunca se havia visto antes. Mais de 3.000 quartos foram anunciados e mais de dois mil foram inaugurados, gigantes brotaram do chão, como o Cosmopolitan e o Íbis Budget – os dois maiores hotéis abaixo do Passo do Inferno.
Com estes dois meteoros de oferta caídos no mesmo lugar em tão pouco tempo, poderíamos antever um cenário de extermínio e superoferta. Não foi o que aconteceu. Hoteis de poucas condições estruturais fecharam, algumas instalações desistiram e a oferta continuou no mesmo patamar e ocupação em pouco tempo, voltou também ao patamares anteriores a cada acidente.
A Guerra das Vacinas
Em 2020, quando o mundo parecia ter tomado jeito, caiu o terceiro meteoro de Chicxulub: veio a pandemia do Coronavírus!
Até junho de 2021, mais de meio milhão de vítimas depois, a hotelaria da capital está quase no mesmo lugar que estava após o Bug do Milênio e antes do Circo da Copa. Mesmo que se contabilize mais de 40 óbitos por comorbidades empresariais pré-existentes, com o desaparecimento de dezenas de marcas tradicionais. Após o bug, a copa e a coronavac, a oferta hoteleira estará no mesmo patamar de antes, assim que os aviões voarem e a torcida a urrar nas cadeiras das arenas. Não apenas por terem fechado outra leva de hotéis de pouca estrutura, como pela abertura de novas grifes.