A família alemã que está a reinventar o vinho alentejano

fiogf49gjkf0d
fiogf49gjkf0d

Por Leonídio Paulo Ferreira



Dorina Lindemann, com a cadela Cloe ao colo, e rodeada pelas filhas Júlia e Luísa. A antiga Quinta do Vinagre, junto a Montemor-o-Novo, foi rebatizada pela família alemã de Quinta de São Jorge (como Jorge Böhm, o patriarca) e tem hoje 110 hectares, 85 dos quais de vinha. Inovadora, Dorina usa castas do Norte de Portugal para produzir vinhos alentejanos, conseguindo exportar 90% da produção. Um caso de sucessoFotografia © Diana Quintela / Global Imagens


Tudo começa em 1961 com um jovem alemão que naufraga em Portugal e se apaixona pelo país. Herdeiro de uma empresa centenária dedicada ao negócios de vinhos, Jorge Böhm torna-se um especialista em castas portuguesas e passa o amor pelas vinhas à filha Dorina Lindemann. Esta e as filhas Júlia e Luísa são hoje famosas em Montemor-o-Novo.


Dorina caminha ágil por entre as vinhas carregadas de cachos, procurando que os pés não tropecem nem nos torrões de terra nem na pequena Cleo, a única das três cadelas da família Lindemann que escapou a ter nome de casta. As outras são a Barroca, bem maior do que a Cleo e que já deu um ar da sua graça nesta manhã, e a Touriga, “que está no veterinário”, explica a alemã que produz vinhos em Montemor-o-Novo há duas décadas e é apaixonada por Portugal desde criança, quando vinha passar férias com os pais e o irmão. “Numa casa em Colares, que ainda lá está, mas já não é nossa”, sublinha.


Aqui é preciso um parêntesis: Dorina Lindemman é filha de Jorge (nascido Hans Jörg) Böhm, que naufragou em Cascais em 1961 quando tentava fazer uma volta ao mundo. Ficou mais tempo do que era preciso para tentar reparar o veleiro, e a partir daí, com um pé em Portugal e outro na Alemanha, até os dois assentarem mesmo por cá, foi-se interessando por tudo que tinha que ver com as vinhas e o vinho português; e a ponto de se ter tornado um reputado especialista.


“O meu pai sabe tudo, mas mesmo tudo, sobre as castas portuguesas”, afirma Dorina. Se fosse preciso certificação de que não se trata só de orgulho filial, aí está O Grande Livro das Castas, com a primeira edição em 2007, e a comenda da Ordem de Mérito Agrícola concedida em 2006 pelo presidente Jorge Sampaio. A Böhm foi também dada a nacionalidade portuguesa.




Economista e enólogo, Jorge Böhm tem 77 anos e desde os 23 está ligado a Portugal. Destacou-se por selecionar e catalogar as castas de vinho portuguesas


As ruínas do Castelo de Montemor-o-Novo avistam-se não muito longe, como se fossem o pano de fundo ideal para um terreno cheio de vinhas quase prontas a ser vindimadas. Afinal, a Quinta de São Jorge (como Böhm) fica a meia dúzia de quilómetros da cidade alentejana, onde toda a gente fala dos “alemães dos vinhos” e ainda mais dos “vinhos dos alemães”.


Hoje quem manda naquelas terras, “que chegaram a chamar-se Quinta do Vinagre, mas logo lhe mudámos o nome, claro”, é Dorina, de 49 anos, mãe de duas filhas, que teve de arregaçar as mangas (e muito) para salvar a empresa Quinta da Plansel quando o marido, morreu, pois as dívidas acumulavam-se. Renegociou com os bancos e conseguiu um sócio, Karl Heinz Stock, também um alemão apaixonado por Portugal, e que mesmo dono de 50% dá carta-branca a Dorina no negócio dos vinhos. Nos últimos anos “as coisas têm corrido bastante melhor”, com projetos para alargar a quinta, que tem 110 hectares, 85 de vinha.” Solo bom. Pesado. Vigoroso. Por baixo com granitos e xisto”, garante a alemã a quem, desconhecedor dos segredos da agricultura, só vislumbra terra vermelha.


Fonte: DN Portugal