Crítico “número 1” reclama do preço

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Crítico “número 1” reclama do preço


Para Marcelo Copello, a soberba inibe o aumento do consumo de vinho no país


Marcelo Copello mora num país “cervejeiro”, mas, mesmo assim, ingressou no seleto clube dos experts em vinho reconhecidos internacionalmente. O título foi dado pela revista Meininger’s Wine Business International, uma das mais respeitadas publicações mundiais dedicadas aos negócios do vinho. Fundada na Alemanha, escrita em inglês e distribuída em 40 países, a revista deu pela primeira vez destaque ao Brasil em sua edição de agosto de 2009, na seção regular “Who’s Who”. Num dossiê sobre o Brasil, a Meininger’s promoveu uma eleição com as pessoas mais influentes do mercado nacional, em oito categorias — como melhor sommelier, melhor carta de vinhos, melhor importador e melhor jornalista, na qual Copello foi eleito.

Ex-cronista da Gazeta Mercantil, o “número 1” entre os jornalistas de vinho do Brasil concedeu entrevista à editora do Guia de Vinhos iG, Margarida O. Pfeifer e, entre outras coisas, criticou a soberba que muitos restaurantes brasileiros impõem ao ato de beber vinho, além do preço alto, motivos que afugentam o consumidor que deseja apenas saborear a bebida com prazer e tornam mais fácil e confortável pedir mesmo a velhar cervejinha.


Guia de Vinhos – Como chegar a ser um expert em vinhos com reconhecimento internacional num país que nunca teve tradição na bebida e sempre foi conhecido por ser consumidor de cachaça e cerveja?

Marcelo Copello – A falta de tradição pode ser um trunfo, pois a tradição pode ser restritiva. Em países tradicionais, como Itália e França, os especialistas locais normalmente conhecem bem só os vinhos de seu país, e às vezes só os da sua região! No Brasil temos cerca de 30 mil rótulos de 30 países. Para sobreviver aqui, um expert precisa estudar tudo o tempo todo e assim adquire uma visão global que poucos aí fora têm.


GV – O vinho tende a continuar crescendo no consumo do brasileiro, e roubando espaço dessas bebidas tradicionais no país?
MC – Sim. Esta tendência existe há cerca de 15 anos e se confirma a cada ano. É uma escalada consistente e aparentemente irreversível.


GV – Qual a responsabilidade do preço no distanciamento do brasileiro dos vinhos de qualidade?
MC – Grande! É uma briga de David e Golias. Sempre repito que paga-se caro demais por qualquer vinho no Brasil, nacional ou importado, e que esta é a grande barreira para que o consumo do vinho no Brasil dispare.


GV – A margem aplicada pelo comércio acaba jogando contra o consumo da bebida, ou o paladar do brasileiro comum é mesmo para outro tipo de bebida?
MC – O brasileiro é hoje um dos consumidores mais ávidos por conhecer o vinho no mundo. Há vinhos para todos os paladares e ocasiões. Falta cultura, mas o brasileiro quer aprender. O que falta, portanto, é mesmo preço.


GV – A linguagem dos enólogos e sommeliers é muitas vezes pouco compreensível ao consumidor que quer apenas tomar vinho. Isso também afugenta o consumidor?
MC – Sim, este é um ponto negativo. Há muito esnobismo, desinformação, e gente que prefere que o vinho seja para poucos, apenas para os “eleitos”. Isso afugenta sim o consumidor, acaba sendo muito mais descomplicado e barato pedir uma cerveja no restaurante do que um vinho. Uma nova geração de enólogos, enófilos, jornalistas e sommeliers está aos poucos mudando isso.


GV – O Brasil passou a produzir vinho de melhor qualidade nos últimos 15 anos. Podemos nos transformar em grandes produtores ou vamos continuar sendo importadores?
MC – Hoje importamos 60% do vinho fino e espumantes que consumimos (não contando os vinhos de garrafão). Este número já foi o oposto, 60% do consumo de nacionais e 40% de importados. Ou seja, produtores já somos, e em termos de volume temos toda a condição de suprir o mercado nacional, mas acho que sempre importaremos muito vinho, pois o consumidor brasileiro sempre vai querer ter a seu dispor a variedade mundial. Exportadores ainda não somos. Começamos a exportar para vários países, mas quantidades pequenas, como uma curiosidade. O vinho brasileiro ainda não tem volume e preço para ganhar fatias significativas de market share no mercado internacional. Temos condições de chegar lá sim, mas os preços terão de baixar.


GV – Os espumantes brasileiros estão ganhando fama. Eles são bons mesmo, ou são apenas “bons por serem brasileiros”?
MC – Já temos qualidade com consistência e com massa crítica. Vários produtores fazem vinhos espumantes bons, todos os anos, há vários anos. Ou seja, um jornalista como eu já pode afirmar sem receio que “fazemos bons espumantes”, o que nos tintos eu não posso generalizar desta maneira. No Brasil temos uma cultura do futebol, onde o que conta é ser “o melhor do mundo”. Os espumantes brasileiros são os melhores da América Latina, mas não são os melhores do mundo, nem os melhores depois do champagne. No vinho não é importante ser o “melhor” e sim o mais adequado, a melhor opção. O espumante brasileiro é a melhor opção até certo preço.


GV – Como definir um bom vinho?
MC – O bom vinho é o que emociona, e a emoção vem do contexto, principalmente da companhia. Costumo dizer que o vinho bom precisa cumprir três requisitos: ser adequado a você (você precisa gostar do vinho), adequado à ocasião (verão, inverno, pratos que irá acompanhar, precisa agradar às outras pessoas que irão beber), e precisa ser adequado ao seu bolso, o quanto você quer gastar naquele momento. Se ao perguntar você queria ouvir porque alguns vinhos recebem mais pontos que outros, a resposta é simples. Existem critérios para avaliar vinhos, aceitos e seguidos (com variações) no mundo todo. Estes critérios analisam aspectos intrínsecos ao líquido (sua cor, aroma e sabor), como limpidez, intensidade, tipicidade (estar de acordo com sua origem e uva), qualidade, complexidade etc. Pode parecer complicado, mas não é. Normalmente não gasto mais que poucos minutos para avaliar um vinho. Não podemos esquecer, no entanto, que um vinho é mais que o líquido, é também cultura. Aí entra tudo que não é o líquido, a história, a fama, o nome, o rótulo, etc.


GV – É possível achar bons vinhos por preços igualmente bons?
MC – Sim, é possível achar vinhos relativamente bons a preços relativamente bons, com um bom garimpo. Os vinhos famosos e de altíssima qualidade sempre serão caríssimos, pois há uma fila de ricos loucos para comprá-los. E o vinho baratíssimo (digamos, de menos de R$ 40), sempre será muito limitado. Se você quer o bom e barato sugiro procurar em países, regiões e produtores pouco conhecidos, onde eles são mais frequentes. Cuidado com o oposto do bom e barato, vinhos fracos e caros, produtos com algum nome famoso, que eleva seus preços acima de sua qualidade.


GV – Qual o melhor vinho que você provou?
MC – Esta é uma pergunta recorrente, que sempre me fazem e sempre respondo de maneira diferente, conforme o que tenha provado recentemente. A degustação mais marcante da qual participei, pela história e fama dos vinhos, além de suas qualidades instrínsecas, foi uma horizontal de Bordeaux 1961, com quase 200 vinhos (todos os grandes), onde se destacaram o Château Latour 1961 e uma magnum de Pétrus 1961, dois dos maiores vinhos de todos os tempos. O vinho mais inesquecível e significativo, no entanto, foi um espumante rosé muito simples que provei no dia em que comecei a namorar minha esposa, Renata, em um pôr-do-sol às margens da lagoa Rodrigo de Freitas.


Mais informação: mardevinho.com.br