Na rota das fazendas de cafés

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O BRASIL MANTÉM COM O CAFÉ UMA HISTÓRIA DE DOIS SÉCULOS. A POUCAS HORAS DO RIO, QUINTAS CENTENÁRIAS TESTEMUNHAM AS DIFERENTES ÉPOCAS QUE FIZERAM, E AINDA FAZEM, A SINGULARIDADE DESTE GRANDE PAÍS PRODUTOR.


ESTAS SÃO AS NOSSAS TERRAS NA FAZENDA SERTÃO, OU SEJA, 250 HECTARES DE PLANTAÇÕES DE CAFÉ. E nesta vertente, os cafezeiros Bourbon que aqui veem foram plantados há mais de cem anos! Uma revoadade periquitos diverte-se por cima dos campos estriados de arbustos verdes sombrios. As colinas repletas parecemressaltar infinitamente até ao horizonte. O céu febril anuncia uma chuvada. Francisco Isidro Dias Pereira perscrutapor momentos as nuvens negras, faz uma careta, e volta à conversa: O meu avô José Isidro foi um dos primeiroscolonos de Minas Gerais a lançar-se no café, em 1910. Tinha percebido como o terreno era propício à sua cultura, com solos ricos em minerais, uma altitude de mais de 1150 metros e um clima menos quente que no litoral. Francisco, ou Chico, como lhe chamam, passou toda a sua vida nesta fazenda Sertão, onde nasceu em 1950. Brincou nas plantações que bordejam os morros ou colinas antes de aí trabalhar, para depois se tornaradministrador desta empresa familiar, explorada há quatro gerações. Os meus avós já tinham a preocupação de conseguir colheitas de qualidade, acrescenta este sexagenário com ares de cowboy, com as suas jeans desgastadas, o seu velho chapéu e o seu bigode espesso. Eles plantaram Bourbon amarelo (uma variedade de Arábica, N.R.), que, na minha opinião, é o melhor café e que representa hoje 45% da nossa produção. E tiveram o cuidado de conservar espaços arborizados, a fim de manter um pouco de biodiversidade na propriedade. Nós seguimos a tradição praticando, por exemplo, o pousio de dois em dois anos, o que nos garante uma boa produtividade, com um mínimo de produtos químicos.



O MELHOR CAFÉ DO MUNDO
Os grandes espaços silenciosos da fazenda Sertão contrastam com a efervescência do Rio de Janeiro, a 350 quilómetros de distância. Há que contar com um bom dia de caminho para se chegar à aldeia de Carmo de Minas  avançando ao longo de cursos de água impetuosos, atravessar aldeias quase desertas, franquear um desfiladeiro  e depois serpentear ainda mais alguns quilómetros no campo, até encontrar a entrada discreta desta prestigiosa fazenda. As parcelas de cafezeiros são aqui ladeadas por cercas de bananeiras ou de cedros, e pequenos bosques de eucaliptos pontuam a vista. A paisagem é tão ondulada que não podemos efetuar as colheitas por meios mecânicos, explica Chico. É tudo feito à mão. Por isso, durante o período das colheitas, a propriedade chega a empregar até 600 pessoas! E como a mão-de-obra é onerosa, não temos outra hipótese senão produzir um café de qualidade, 100% Arábica, vendido mais caro do que o Robusta das planícies. A família Pereira tira atualmente as vantagens desta aposta, já que se pode orgulhar de produzir um dos cafés mais excecionais do Brasil. Chico acrescenta orgulhosamente: Em 2005, o prémio Cup of Excellence deu-nos mesmo a melhor nota alguma vez atribuída no mundo.


De repente, temos vontade de provar este precioso néctar. Chico faz-nos subir para a plataforma traseira da sua velha carrinhapick-up e conduz-nos pelos atalhos enlameados da plantação, até à casa familiar. Traz uma cafeteira em metal esmaltado e serve o seu tesouro preto de acesso florido, retorno suave e equilibrado e ligeiramente amargo. Lá fora, a trovoada acaba por rebentar. Bem abrigado pela habitação rústica de madeira, Chico aproveita para relembrar a história do café brasileiro. É no início do século XIX que as plantações têm o seu impulso inicial. A partir de 1831, o Brasil torna-se o primeiro exportador mundial, o número de explorações progride e o país conhece duas décadas de expansão económica, nos anos de 1850 e 1860, devido à chegada maciça de escravos africanos. A produção abranda nos anos 1880, com as leis da abolição da escravatura, mas também devido a uma sucessão de rigorosos invernos, fatais para as plantas e sem dúvida também devido ao esgotamento dos solos demasiado cultivados, dada a necessidade de rentabilização a curto prazo. O meu avô lançou-se na produção de café durante o segundo grande período do café brasileiro, que se inicia nos anos 1910 e termina no princípio dos anos 1950, continua Chico. Estes novos exploradores avançaram mais profundamente nas terras, em Minas Gerais mas também na região de São Paulo ou do Paraná, mais a sul. É uma nova época de prosperidade para os grandes barões do café, que desbravam uma natureza ainda virgem, para aí cultivarem excelentes cafés que exportarão para todo mundo. Mas tudo se altera em 1952, quando o Instituto Brasileiro do Café (IBC) impõe preços baixos a todos os produtores e edita uma regulamentação que privilegia as quantidades produzidas e já não a qualidade. Durante 40 anos, até ao encerramento do IBC em 1989, o Brasil sofreu com esta política. Depois, tivemos de lutar muito para conseguirmos recuperar esta reputação. Inspirámo-nos na cultura do vinho para criar denominações de origem e culturas vintage. Eu levo-os de carro até à casa do meu sobrinho Luiz para ele vos falar melhor sobre o que se passa atualmente.


NOVA ERA
A chuva tropical parou, o sol já vai evaporando as poças de água. Saímos da fazenda para nos dirigirmos à aldeia de Carmo de Minas. O laboratório da marca Carmo Coffees (a secção de exportação da Sertão Coffees) está situado no cimo de uma rua empedrada, perto da igreja. O café brasileiro entrou numa nova era, em que se dá uma maior atenção à qualidade, explica Luiz Paulo Dias Pereira Filho, no seu escritório atulhado de caixas metálicas. Para além do nosso trabalho sobre o sabor dos nossos cafés, respondemos melhor às questões de responsabilidade social e ambiental da nossa empresa, e melhoramos a rastreabilidade dos nossos grãos. Graças a estes esforços, exportamos para 35 países e somos atualmente parceiros de clientes prestigiados, como a Nespresso. A empresa Sertão faz efetivamente parte dos fornecedores de Bourbons amarelos, nomeadamente para o Grand Cru Dulsão do Brasil. O que prova que a qualidade dos grãos e a gestão da exploração correspondem às normas da marca suíça e do seu Programa AAA.


Um inebriante odor a café espalha-se pelo escritório: é a hora em que os sacos são selecionados, em função do gosto dos clientes. Descendo a pequena escada que leva ao laboratório, onde iremos ver os empregados a torrar alguns grãos, e depois levarem aos lábios as diferentes chávenas, antes de atribuírem uma nota a cada uma, Luiz mostra-se confiante no futuro. Os cafés gourmet estão em evolução no Brasil, mas atualmente representam apenas 2 milhões de sacos em 50 milhões produzidos anualmente no território. Há um enorme potencial de desenvolvimento para estes cafés de alta qualidade.


A mesma opinião tem o seu primo Hélcio Pereira da Silva Júnior, diretor comercial da cooperativa Unique Cafés (a secção da Sertão Coffees que torra e distribui o café da fazenda no território nacional). Da mesma maneira que os produtores aumentam o seu grau de exigência, os consumidores querem beber melhores cafés. Nós acompanhamo-los assim nas suas provas, propondo boutiques acolhedoras onde poderão vir iniciar-se em novos sabores e documentar-se sobre este produto, tão essencial na história do nosso país.


VISITAS PEDAGÓGICAS
A 200 quilómetros, na estrada de regresso ao Rio, no vale do rio Paraíba, Roberto Freitas reconverteu-se em pedagogo para contar o importante lugar que o café ocupa no desenvolvimento do Brasil, e o papel primordial que os escravos negros desempenharam nesta construção. Antigo contabilista, apaixonou-se pela época das primeiras fazendas, a ponto de se vestir na pele de um grande proprietário do século XIX. No seu fato de barão do café, efetua diariamente reconstituições históricas junto dos alunos das escolas próximas ou dos turistas que decidem parar na fazenda Ponte Alta, na comuna da Barra do Piraí. Estamos nas terras do primeiro grande período do café. As visitas pedagógicas que organizo mostram quem construiu realmente este país e as condições em que o fez, diz este fervoroso adepto da história, levando-nos a visitar a exploração construída em 1830 numa propriedade de 1800 hectares. O local é grandioso, com as suas colinas verde claras, os rebanhos conduzidos por cowboys a cavalo e as construções de época, rodeadas de palmeiras imperiais. Na parte da Pousada, a fazenda abriga quatro quartos e uma boa mesa para os visitantes desejosos de descobrir as rotas históricas do café brasileiro. Ponte Alta foi a única fazenda que conservou na íntegra as suas construções, nomeadamente com as senzalas, isto é, as células onde se amontoavam os escravos. A plantação albergava até 800 escravos, quando a economia do café atingia o seu nível mais alto. O Brasil foi o último país cristão a abolir esta prática, em 1888.


Esta manhã, uma turma de alunos das redondezas assiste à representação do barão Freitas. As crianças suspendem a respiração durante a encenação do quotidiano que os trabalhadores tinham de suportar  a cor da pele destes adolescentes leva a pensar que serão, na sua maior parte, descendentes de escravos. Mas, assim que a representação termina, os alunos dispersam alegremente sobre a relva e improvisam uma partida de futebol. À sombra, no alpendre, Roberto Freitas escuta as reações e os risos das crianças. Esta parte da história é pouco ensinada na escola. 130 anos após a abolição da escravatura, acho que está na hora de falar nela.


PROGRAMA NESPRESSO AAA: POSITIVO A TODOS OS NÍVEIS
Para garantir a produção de um café de qualidade, bem como um impacto ambiental e social positivo para os produtores, as fazendas selecionadas pela Nespresso participam, com o seu Programa AAA para a Qualidade Sustentável, no respeito pelas boas práticas. Implementado em 2005 no Estado de Minas Gerais, este programa convida os produtores de café a efetuarem uma seleção mais rigorosa dos seus grãos de café, eliminando as cerejas verdes que ainda não estão suficientemente maduras e dinamizando as técnicas de secagem ao sol, com o objetivo de preservar a alta qualidade dos seus cafés. As condições de trabalho dos empregados são melhores (em salários, horários e alojamento) e as questões ambientais são acompanhadas com atenção. Os ecossistemas e a biodiversidade são preservados, a fim de garantir os recursos em água das zonas próximas e prevenir a erosão dos solos.



Por Guillaume Jan – Fotos Jean-Christophe Husson – Mapa Anne Chaperon