Por uma nova regionalização da produção mundial do vinho

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Por Fernando Gama


Não se pode falar em produção do vinho sem discutir a velha regionalização Vinho do Velho Mundo X Vinho do Novo Mundo. Defendo a necessidade, porém, de se fazer, criteriosamente, uma revisão conceitual da regionalização vigente da produção mundial do vinho. Esta regionalização se vale de certas denominações genéricas, comumente utilizadas no Brasil e em outros países para classificar a procedência da produção vinícola, tais como ‘vinho do velho mundo’ e ‘vinho do novo mundo’. Nesse caso, o velho mundo fica, propositalmente e ideologicamente, reduzido espacialmente à Europa. Mas, se o vinho surgiu no Oriente Médio e seu entorno, onde egípcios registraram, em pinturas milenares, todas as etapas da produção vitivinícola, indaga-se o porquê da exclusão do norte da África e da Ásia da área do velho mundo. Segundo Rod Philips:


“Embora houvesse uvas silvestres em muitas partes da Europa e do oeste da Ásia, os primeiros indícios de fabricação de vinho surgiram numa região bem delimitada do crescente fértil nas encostas do Cáucaso entre o mar Negro e o mar Cáspio, as montanhas Tauros do leste da Turquia e a parte norte das montanhas Zagros, no oeste do Irã, Geórgia e Turquia, se encontram com Armênia e Azerbaijão. É possível que o homem tenha cultivado uva nesta parte do mundo em 6000 a.C.”1 



Fig. 1 Pintura da tumba de Kha’Emwese de Tebas, datada de aproximadamente 1450 a.C. Percebe-se que a intenção era que o monarca fosse bem servido de vinho na eternidade. A pintura também revela um adiantado estado técnico da vitivinicultura egípcia desde a vindima apassando pela vinificação, transportr e o consumo final do monarca. 



Fig. 2 Colheita e pisa da uva no Egito antigo. 


A produção milenar da Geórgia, Jordânia, Líbano, por vezes, são pautadas como a de vinhos exóticos’. Cientificamente, os pesquisadores aceitam a presença de sementes de uva como evidência ou probabilidade de elaboração de vinho. Assim, considera-se que esses países são precursores na produção vitivinícola e, no caso do Líbano, a própria Bíblia registra o milagre da transformação da água em vinho por ocasião da celebração das bodas de Canaã.



Fig. 3– As Bodas de Caná de Tintoretto (1518 – 1594). 


Pode-se citar como exemplo o registro da produção de vinhos no atual território de Israel, localizado na região da Palestina, desde antes do nascimento de Cristo. Recentemente, houve um reconhecimento da qualidade dos atuais vinhos. Os franceses levaram para a região a modernização no processo produtivo, quando o Barão


Edmond James de Rothschild – proprietário do Château Lafite – fundou, em 1882, a Vinícola Carmel. Em 1970, surgiram novas vinícolas. A introdução de uvas francesas somadas a um processo produtivo típico do ‘novo mundo do vinho’ resultaram no avanço qualitativo a partir da década de 90. As principais regiões produtoras são a Galileia (norte do país), as Colinas de Golã e Colinas da Judeia em áreas de maior altitude, com clima seco e mais frio. As cepas de maior destaque são as do tipo global, predominantemente de origem francesa, em detrimento das autóctones, são elas: Syrah, Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec, Sauvignon Blanc, Chardonnay. A India, por exemplo, produz vinho há mais de 2000 anos a.C. e, na China, são também conhecidos vestígios de vinho datados de 2000 anos a.C.

Nesses casos, não se pode empregar a expressão ‘vinho do velhíssimo mundo’, sob a pena de constituir uma expressão desprovida de base científica. Acrescente-se a isso que o classificar num mesmo conjunto de vinhos exóticos é repetir de maneira equivocada e, por vezes, submissa o mantra do poder eurocêntrico. Os autores Ed McCarthy e Mary Ewing-Mulligan apresentam uma visão crítica ao afirmarem que “o que há em comum entre os vinhos da América do Norte, da América do Sul, da África e da Austrália? Nenhum deles é produzido na Europa. Na verdade, poderia dizer-se que são vinhos da ‘Não-Europa”.


Mais adiante, os mesmos autores enxergam um viés ideológico na denominação ‘novo mundo’ para classificação geral da produção vitivinícola, ao afirmar que: “indubitavelmente, esta expressão, com seu toque de colonialismo foi cunhada por um europeu (…) a Europa, berço de todas as regiões vinícolas clássicas do mundo é o velho mundo. Tudo o resto é nouveau riche”.Geograficamente, partiremos da premissa de que os conceitos de velho mundo, novo mundo e novíssimo mundo não têm relação com a produção vitivinícola. Esses conceitos geográficos são bem sedimentados, inconfundíveis e intransferíveis quanto aos seus consensuais limites espaciais.


O universo enológico utiliza-se desses conceitos e suas espacializações empregando-os de maneira descompromissada, equivocada e desprovida de base científica.


O critério de regionalização baseada na geografia física mais tradicional e difundida no mundo emprega a expressão ‘velho mundo’ para abranger a Ásia, África e Europa, berços das grandes civilizações. Este conjunto representa, na prática, uma única grande unidade, o continente Eurásio-africano. Nesse conjunto, a África e Ásia estão separadas artificialmente pelo canal de Suez, construído por um consórcio franco-britânico no século XIX, e a fronteira da Europa com Ásia foi arbitrada, levando-se em conta os Montes Urais, Rio Ural, Mar Cáspio, Cáucaso, Mar Negro e estreitos de Bósforo e Dardanelos. A Europa, na realidade, é uma extensão  territorial da Ásia, daí, o limite imposto artificialmente. A construção desses limites obedece não apenas a um critério físico, como também a critério histórico-cultural.


Quanto à expressão ‘novo mundo’, ela surge em oposição ao velho, isto é, novas áreas agregadas à economia mundo a partir do século XVI, com o advento das grandes navegações. Já o conceito de ‘novíssimo mundo’ nunca utilizado pelo universo enológico, se refere à Oceania, última das áreas a serem ocupadas e dominadas efetivamente pelos europeus a partir do século XVIII. É importante ressaltar que, durante muito tempo, a Oceania não foi considerada sequer continente e, por muitos séculos, várias obras de arte como esculturas e pinturas de origem europeia mostram a representação de apenas quatro continentes. Assim, durante o desenvolvimento dessa pesquisa, optou-se por construir uma nova regionalização, onde serão empregadas expressões que representem novas espacializações para o universo da produção vitivinícola. Aproveitando parte da classificação tradicional e tentando solucionar as contradições acima referidas, com o respaldo científico da Geografia, pôde ser construído um novo viés de análise conceitual, dando origem a um novo desenho regional do mapa da produção vitivinícola mundial. Assim, atribuiu-se o conceito de “antigo mundo do vinho” à região reconhecida pelo seu papel histórico como precursora nas técnicas primitivas da vitivinicultura iniciadas há mais de 6000 anos. Estas áreas abrangem a Ásia (Cáucaso, Oriente Médio, Índia e China) e a África Setentrional (Egito, seu entorno e o Magreb). O “velho mundo do vinho”, correspondendo apenas à Europa enquanto o “novo mundo do vinho”,  correspondendo ao conjunto das seguintes regiões ou continentes: às Américas, Sul da África, e Oceania. Depois de se apropriar das técnicas avançadas de cultivo trazidas pelos sarracenos e mouros e valendo-se do aspecto religioso do Alcorão proibitivo ao consumo do vinho ao associá-lo ao pecado, a Europa vai despontar e dominar a produção vitivinícola, sem se preocupar com a concorrência na produção extra-continental do Oriente Médio, lançando mão de novas pesquisas e avançando sistematicamente no sentido de apurar as técnicas empregadas na melhoria da qualidade do produto. Assim, para a denominação “velho mundo do vinho”, o que serviu como referência ou suporte teórico-científico foi o desenvolvimento técnico da Primeira Revolução Indústrial e a posterior revolução tecno-cientíífica da Segunda Revolução Industrial. Ambas revoluções acarretaram um impacto na produção vitivinícola europeia, que denominaremos de primeira e segunda ondas de modernização no universo da vitivinicultura. Finalmente, a denominação “novo mundo do vinho” corresponde ao lócus da terceira onda de modernização, que é relacionada à atual Terceira Revolução Industrial ou Tecno-científica Informacional e, por extensão, à globalização propriamente dita.


Trata-se do domínio dos winemakers, cuja elevada produção e padronização são direcionadas para o consumo de massa. No universo da produção vitivinícola internacional as denominações ‘novo mundo do vinho’ e o ‘ velho mundo do vinho’ são as que merecem maior destaque. Os experimentos da globalização do vinho serão sentidos vivamente nas novas áreas produtivas, oriundas da expansão do domínio europeu no mundo, ou seja, no ‘novo mundo do vinho’. 


Fernando Gama (ABS)
Prof. Geografia  Pedro II / Mestre em Vinho e Cultura pela UCAM.
Fernando é proprietário do Wine Rio
Praia de Botafogo, 154 – Botafogo – Rio de Janeiro
(21) 2237-8335
www.winerio.com.br