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Por TATA FROMHOLZ
A Cachaça do Imperador, em Santo Amaro da Imperatriz é um dos tantos produtores do destilado existentes no Estado. Na Capital, o Armazém Vieira é conhecido no comércio da bebida
Ela já foi cantada, escrita em prosa e verso, já ajudou muita gente a curar fossas e inclusive dizem que o descobrimento do Brasil foi brindado com ela. Produto tipicamente nacional, tem mais de 130 sinônimos no dicionário Aurélio para identificá-la, como perigosa, birita, caninha… Já deu pra descobrir de quem estamos falando?
Da cachaça! Santa Catarina é conhecida por ser um dos Estados referência quando o assunto é a produção desse destilado e por isso fomos até Santo Amaro da Imperatriz, distante 34 quilômetros de Florianópolis, só para conhecer a Cachaça do Imperador, propriedade de Hélio João Machado que há 25 anos produz a branquinha e é um dos tantos produtores do destilado existentes no Estado.
Morador de São José, há quase 30 anos ele comprou o terreno que contava com um engenho antigo com o intuito de encontrar águas termais e fazer parceria com uma grande rede de hotéis. Não encontrou água quente e depois de quatro anos começou a pensar em produzir aguardente. O estalo só aconteceu um dia em casa, assistindo televisão. “Vimos uma matéria na tevê sobre o refinamento da bebida e nos interessamos pelo assunto. Olhamos um para o outro e pensamos: acho que já sabemos o que fazer com aquele terreno”, conta a mulher de Hélio há 33 anos, Sandra Regina Porto Machado. Como naquela época era difícil ter acesso a informações via internet, eles acabaram ligando para a delegacia da cidade de Santana do Deserto, no interior de Minas Gerais, para pegarem informações sobre o engenheiro que havia dado a entrevista que ambos haviam acabado de ver.
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Hélio João Machado, da Cachaça do Imperador, de Santo Amaro da Imperatriz, produz a bebida há 25 anos
Tata Fromholz/Divulgação/ND
A partir desse dia, trocaram o trabalho na empresa de segurança eletrônica pela produção do destilado. Começaram do zero. Nenhum dos dois bebe e todo o teste para saber se a cachaça está ‘no ponto’ é técnico. Além de ajudá-lo na recepção dos visitantes, é ela quem fabrica os licores de frutas que também são vendidos no bar da cachaçaria (uma dica: se for ao local, peça para provar o de maça verde) e as geleias, entre elas a de cachaça, champanhe e vinho, tendo feito cursos no Brasil e em Portugal para aperfeiçoar a arte em se fazer um bom doce.
Dá gosto ver como Hélio fala do seu negócio. “Meu trabalho é uma cachaça”, ele brinca enquanto prepara uma caipirinha para um grupo de visitantes que apareceu para conhecer os seus domínios.
A água que passarinho não bebe
A professora aposentada Carmem Santos, de Florianópolis, trouxe amigas de infância, que moram em Porto Alegre, para um passeio diferente pela Grande Florianópolis. “Desta vez mudei o roteiro e vim para os lados de cá”, comenta ela, encantada. Para os leigos, entender como funciona o processo para a produção da bebida é uma aula para valorizar mais a ‘água que passarinho não bebe’. Resumindo, a cana plantada por ele é lavada e moída e depois o caldo é misturado à uma levedura natural, onde fica fermentando por algumas horas.
Depois disso, vira um vinho de cana doce, com uns 8% de teor alcóolico. Esse vinho vai para o fogo, evapora e o que surge daí já é a cachaça, com 50% de álcool,. Seria simples assim se no meio do processo não houvesse alambique de cobre, serpentina, temperaturas reguladas e afins. Depois da cachaça destilada, é chegada a hora do repouso por normalmente quatro anos em barris de carvalho francês até o momento dela ser engarrafada para o consumo ou ficar por ali mais algum tempo.
O armazenamento dos barris é feito num outro imóvel, a alguns metros de onde funciona a destilação da bebida. Além de ser o local de repouso também funciona como uma espécie de museu da cachaça. Engenhos à base de cavalos, moedeiras e quase todos os equipamentos utilizados antigamente para a produção do destilado encontram-se ali. Fileiras de tonéis descansam numa sala que chama a atenção pelo total silêncio.
Outra curiosidade refere-se a um barril de 2.700 litros, onde há 16 anos está armazenada a grande aposta de Hélio. A ideia é deixá-la por ali por tempo indeterminado e inscrevê-la em concursos, já que quanto maior o tempo, mais a aguardente incorpora o aroma e sabor da madeira. Falando em especialidades, a queridinha da vez do produtor é a cachaça envelhecida por doze anos e que já ganhou prêmo num concurso em Bruxelas, na Bélgica, e levou o primeiro lugar na ExpoCachaça deste ano. Meio litro da ‘dourada’ custa R$ 250 e dizem que vale cada centavo.
Primeiro produto explorado no Brasil
A história do Brasil está entrelaçada com a da cachaça. Como subproduto do açúcar, que foi o primeiro produto a ser explorado em terras brasileiras, ela logo foi descoberta pelos escravos e navegadores, que a utilizavam para a limpeza dos navios, como antisséptico e até conservante de alimentos. Florianópolis entrou na rota dessas embarcações por ser o segundo maior porto do país na época do Descobrimento, ficando atrás apenas de Paraty, no Rio de Janeiro. A cidade tinha cerca de 110 alambiques e era onde os barcos paravam para se abastecer com alimentos, como rapadura, café, entre outros. Os limões eram proveniente do bairro Saco dos Limões, o carvão vinha da Carvoeira e a cachaça de umas das várias destilarias que estavam pelas redondezas. “Com limão, açúcar, cachaça e especiarias a bordo, surgiram os ‘gorós’ que forneciam aos tripulantes a vitamina C que eles precisavam e também os aquecia do frio no retorno para a Europa”, conta Paula Montealegre, uma turismóloga que abriu uma empresa de viagens e ao invés de pacotes oferece aos turistas experiências, como essa que reúne as cachaçarias.
Atualmente os alambiques na cidade reduziram-se a somente dois, ambos no Sul da Ilha – um próximo à praia do Pântano do Sul e outro chegando ao Sertão do Ribeirão da Ilha. Há diversos bares na cidade que comercializam a bebida, mas o mais famoso é o Armazém Vieira, de propriedade de Wolfgang Schrader, que há 34 anos armazena e faz a conservação da cachaça que compra com dois fabricantes e alambiqueiros do Estado, um de Luiz Alves e outro de Antônio Carlos. Mesmo sem produzir, ele teve que estudar muito para aprender tudo sobre a bebida e conversar com ele é como voltar ao tempo. Ela conta que o rum cubano é filho da cachaça brasileira, já que os holandeses quando foram expulsos do Brasil levaram o conhecimento que tinham para Cuba e não conseguindo reproduzir as técnicas de produção da aguardente, acabaram descobrindo outra bebida.
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Cachaça do Imperador, sala de descanso tem cerca de 200 barris para repousar a bebida
Tata Fromholz/Divulgação/ND
Igual à produção de alimentos
Quando perguntado sobre o que é uma boa cachaça, Wolfgang Schrader responde que como é um alimento, a produção deve ter os procedimentos higiênicos desde a escolha da cana que será usada até o momento de armazenar a bebida. “Há todo um ritual para se produzir uma boa aguardente, todo o processo deve ter um bom odor. É como se pensar num churrasco: se a carne não é boa, o fogo está se apagando e se quem faz, faz de qualquer jeito, você vai esperar o que?” Com toda essa aula sobre a bebida, não há mais motivo para querer se consumir uma cachaça qualquer. Se o Estado é premiado e reconhecido pela produção, está mais do que na hora de valorizar o produto local. Vida longa à purinha!
Onde encontrar:
Cachaça do Imperador, rua Vale das Termas, 1300 – Caldas da Imperatriz, tel. (48) 98812 2188, www.cachaçadoimperador.com.br/contato@cachaçadoimperador
Para o melhor atendimento, o ideal é que as visitas sejam agendadas com antecedência. No local funciona um bar com degustações e vendas das bebidas, além das geleias produzidas no local.
Floripa Experience [Agencia de Turismo], av. Rio Branco, 817- Florianópolis, tel. (48) 3333 4684/ 98406 1026, www.floripaxperience.com.br
Armazém Vieira, rua Aldo Alves, 15, Saco dos Limões, Florianópolis, tel. (48) 3333
Fonte: Noticias do Dia – https://goo.gl/EXXddt