“Os três vinhedos de Van Gogh”
Por Marcelo Copello
“Most influential journalist” (Brazil) – Meininger´s Wine Business International
No último 21 de agosto os jornais de todo o mundo noticiaram que o quadro “Flor de Papoula” de Vincent Van Gogh (1853-1890) havia sido roubado do museu do Cairo. Hoje esta obra vale a bagatela de US$ 55 milhões. O holandês, contudo, morreu na miséria e vendeu apenas um quadro em vida.
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“A Vinha Vermelha”
A paixão intensa deste gênio da pintura, explícita em cada forte pincelada, também abraçou o vinho. Van Gogh viveu uma parte importante de sua vida na região vinícola de Arles, na Provence, sul da França. Nos 15 meses em que lá esteve (entre 1888 e 1889) pintou mais de 200 quadros, fez cerca de 100 desenhos e escreveu 200 cartas, boa parte destas a seu irmão Théo (registradas no livro “Cartas a Théo” – L&PM, Porto Alegre, 2002). Em uma destas cartas o mestre confessa beber muito vinho: “todos os dias tomo o remédio prescrito por Dickens contra o suicídio: vinho, pão, queijo e tabaco”.
O filme “Sede de Viver” (Lust for Life, EUA, 1956), dirigido por Vincent Minnelli com Kirk Douglas como Van Gogh, mostra a passagem do artista por Arles e o momento de suas criações ao ar livre, lutando contra o vento mistral, que assola a região.
A única tela de Van Gogh vendida em vida chame-se “A Vinha Vermelha” (pintada em 1888 em Arles), e sela sua relação com o vinho. O próprio autor descreve sua obra como “um vinhedo vermelho, todo vermelho como vinho tinto. Ao fundo, no céu com sol, o vermelho se transforma em amarelo e depois em verde. Na terra depois da chuva os tons são de violeta com reflexos dourados do sol”. A obra foi comprada pela pintora belga e patronnesse de diversos artistas Anne Boch (irmã do também pintor Eugène Boch), por míseros 400 francos.
“A Vinha Vermelha” foi pintada em novembro, o que indica que 1888 teve uma colheita retardada (e chuvosa), e sugere que as uvas retratadas sejam Grenache e/ou Carignan, castas tardias típicas da região. Este, entretanto, não foi o primeiro nem o último vinhedo de Van Gogh. No mesmo ano, dois meses antes (portanto na mesma e longa colheita), ele pintou “A Vinha Verde”. Nesta obra vemos manchas alaranjadas em meio à paisagem verde, o que, segundo o crítico inglês Stuart George, seriam indicativos de ataque do vírus Leafroll (que reduz o rendimento e adia a maturação) e de presença de Phylloxera (praga que gravemente a Europa exatamente no final dos anos 1890).
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“A Vinha Verde”
Na véspera do Natal de 1888 Van Gogh cortou sua própria orelha e entregou-a a uma prostituta chamada Raquel. Há várias teorias que tentam explicar o fato, mas nenhuma conclusiva. Fala-se que inspiração do ato insano foi uma tourada vista na véspera, em que o
o matador, arrancou a orelha do touro, oferecendo-a, como trofeu, a uma dama na arquibancada. Outra possível inspiração poderia ter vindo da série de artigos do jornal de Arles um mês antes sobre “Jack, o estripador”, que mutilava o corpo de prostitutas, algumas vezes cortando-lhes as orelhas. Seja como for o estado de saúde física e mental do pintor piorou e o levou a se mudar para Auvers-sur-Oise, perto de Paris. Uma de suas últimas telas foi seu vinhedo mais sereno o “Vinhedo com vista de Auvers” de junho de 1890. Esta plácida obra mostra um vinhedo verde em uma colina cercado de casinhas brancas com chaminés.
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“Vinhedo com vista de Auvers”
Vincent Van Gogh cometeu suicídio em 29 de julho, apenas um mês depois de pintar seu último vinhedo e apenas cinco meses após a venda da “Vinha Vermelha”. Pelo visto em Auvers o grande artista careceu de algo que era abundante em Arles, o “remédio de Dickens”.
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)
www.mardevinho.com.br