O Dia em Que Um Colaborador Pede Demissão Não É o Problema. É o Resultado do Problema.

Por: Rui da Silveira Cruz Ventura

 

Há uma cena que se repete diariamente em empresas de todos os setores.

Um colaborador entrega a carta de demissão.

O gestor fica surpreendido.

O proprietário fica irritado.

A equipa comenta durante alguns dias.

E a procura por um substituto começa imediatamente.

 

Mas existe um detalhe que poucos observam.

A demissão raramente é o problema.

Na maioria das vezes, ela é apenas a consequência.

O capítulo final de uma história que começou muito antes.

Ao longo de mais de cinco décadas na hotelaria, aprendi que as pessoas raramente abandonam umaempresa de um dia para o outro.

Elas vão acumulando pequenas frustrações.

Uma promessa não cumprida.

Uma escala desequilibrada.

Uma liderança ausente.

Um esforço que nunca é reconhecido.

 

Uma sensação crescente de que o seu futuro não está ali.

Até que um dia surge uma oportunidade.

E aquilo que parecia uma decisão repentina já vinha sendo construída há meses.
O curioso é que muitas empresas continuam a tratar a saída como um acontecimento isolado.

Não analisam as causas.

Não procuram padrões.

Não fazem perguntas difíceis.

Limitam-se a substituir a pessoa.

 

E repetem o ciclo.

Na hotelaria isso torna-se ainda mais evidente.

Um rececionista experiente não conhece apenas procedimentos.

Conhece hóspedes.

Conhece hábitos.

Conhece problemas recorrentes.

Conhece soluções.

 

Uma governanta experiente identifica falhas antes que elas cheguem ao cliente.

Um supervisor experiente resolve conflitos antes que eles se transformem em reclamações.

Quando essas pessoas saem, levam consigo conhecimento que não aparece em nenhum manual.

E recuperar esse capital demora tempo.

Muito tempo.

Por isso, sempre que ouço alguém afirmar que a retenção é cara, costumo fazer uma pergunta simples:

Quanto custa perder?

Quanto custa recrutar?

Quanto custa formar?

Quanto custa o retrabalho?

Quanto custa um cliente perdido?

Quanto custa uma equipa desmotivada?

A resposta raramente cabe numa única linha do relatório financeiro.

Mas aparece, inevitavelmente, no resultado final. (-)


Talvez esteja na hora de mudar o foco.

Em vez de tentar resolver a demissão, devemos compreender aquilo que a provocou.

Porque quando um bom profissional decide sair, normalmente a decisão já estava tomada muito antes da assinatura da carta.

E quando a liderança percebe isso, já está a olhar para o problema tarde demais.

A retenção não começa quando alguém pensa em sair.

Começa muito antes.

Começa na forma como as pessoas são lideradas todos os dias.

Porque o dia em que um colaborador pede demissão não é o problema.

É apenas o momento em que o problema finalmente se torna visível.